Simbologia
Gaudí concebeu uma complexa iconografia que baseou exclusivamente na sua condição de templo católico e no culto religioso, adaptando todos os elementos aos ritos litúrgicos. Para isso inspirou-se nomeadamente em El Año Litúrgico de Prosper Guéranger, recompilação de todos os cultos e festividades religiosas produzidas ao cabo do ano, bem como no Missal Romano e o Cerimonial de bispos. Para Gaudí, a Sagrada Família era um hino de louvor a Deus, no qual cada pedra era uma estrofe. O exterior do templo representa a Igreja, através dos apóstolos, os evangelistas, a Virgem e Jesus, cuja torre principal simboliza o triunfo da Igreja; o interior alude à Igreja universal, e o cruzeiro à Jerusalém Celestial, símbolo místico da paz.
As torres na fachada da Natividade são coroadas com formas geométricas reminiscentes do cubismo, tendo sido terminadas por volta de 1930. A intrincada decoração é contemporânea da Art Nouveau, mas o estilo pessoal de Gaudí baseou-se na Natureza e não em outros artistas ou arquitetos da época. Gaudí usou estruturas hiperboloides em desenhos posteriores do templo (de forma mais óbvia a partir de 1914), embora haja locais da fachada da Natividade — sem equivalência com as superfícies regradas de Gaudí, onde o hiperboloide surge inesperadamente, como as que rodeiam o pelicano ou o cesto que uma das figuras segura. As espiras da mitra de uma figura episcopal pires são coroadas com estruturas hiperboloides. Nos seus últimos desenhos, as superfícies regradas eram proeminentes nos vãos da nave e janelas da fachada da Paixão.
Várias áreas do templo estão designadas para representar simbolicamente os "santos", as "virtudes" e os "pecados", mas também conceitos seculares. O simbolismo cristão está presente em toda a obra, que de forma cenográfica apresenta a vida de Jesus e a história da Fé. Com esse objetivo, o templo foi sendo construído segundo a ideia original de Gaudí, que encenou o esquema arquitetónico com locais que evocam Jesus e os fiéis, representados por Maria, os apóstolos e os santos. Esta disposição pode observar-se nas torres, que simbolizam Jesus, a Virgem, os quatro evangelistas e os doze apóstolos, nas três fachadas que representam a vida humana de Jesus (do nascimento até à morte), e no interior, sugerindo a Jerusalém Celeste, onde uma série de colunas dedicadas a cidades e continentes representam os apóstolos.
Os temas da decoração incluem palavras e expressões da liturgia católica. Além da decoração das torres com palavras como "Hosanna", "Excelsis", e "Sanctus", os grandes portões da fachada da Paixão reproduzem textos bíblicos em várias línguas enquanto a fachada da Glória será decorada com palavras do Credo dos Apóstolos. Gaudí desenhou pessoalmente muitas das esculturas da Sagrada Família, aplicando um curioso método de trabalho ideado por ele: primeiro fazia um profundo estudo anatômico da figura, centrando-se nas articulações -para o que estudou detidamente a estrutura do esqueleto humano-; às vezes servia-se de bonecos confeccionados com arame para provar a postura adequada da figura a esculpir. Em segundo lugar, realizava fotografias dos modelos, utilizando um sistema de espelhos que proporcionavam múltiplas perspectivas. A seguir, fazia moldes em gesso das figuras, tanto de pessoas como de animais (numa ocasião teve de içar um burro para que não se movimentasse). Sobre estes moldes fazia emendas nas proporções para conseguir uma visão da figura dependendo da sua situação no templo (mais altas quanto mais elevadas). Finalmente, era esculpida em pedra.
